Dorovan já estava acostumado com o calor, Laughton, sua terra natal, era a mais tropical de toda a Ilha Nobre, mas, mesmo assim, Ax'aria parecia insuportavelmente quante naquele dia. Ele abanava-se com o chapéu e observava Sophie, que sofria com suas roupas pesadas. O calor não é muito comum em Brando, na verdade, dos três reinos, ele era aquele com temperaturas mais amenas, geralmente com muita chuva. Mas hoje, em Ax'aria, mesmo o dia nublado não parecia fazer a temperatura diminuir.
Apesar disto, a cidade-fortaleza fervilhava em atividade, todos pareciam ocupados com algo, as forjas estavam mais ativas do que nunca, nos quartéis, os soldados limpavam armas e armaduras, ordens era dadas e obedecidas. Algo acontecia.
Confuso com tanta agitação, Dorovan demorou quase uma hora até finalmente encontrar o capitão com quem falara na noite anterior.
- “Ora, nobre capitão Isgard! Até que enfim lhe encontrei, que dificuldade para encontrar um rosto conhecido nesta confusão!” - Disse Dorovan. Isgard, um homem-lobo já com seus quarenta verões, trajava sua armadura de batalha e tinha um machado de guerra preso nas costas. Ele olhou para Dorovan e fez um gesto para que ele esperasse um pouco, depois, espediu algumas ordens e virou-se para o espadachim.
- “Não tenho muito tempo para lhe explicar, então, por favor, apenas me siga por enquanto, eu irei lhe contar o que precisa saber.” - Isgard falava e seguia andando com passos firmes, ganhando o pátio, Dorovan e Sophie apertaram o passo para segui-lo. Ele deu mais algumas ordens para os soldados, virou-se e passou por entre os dois, seguindo na direção oposta, até uma torre de vigilia.
- “Subam.” - Disse Isgard, já subindo ele mesmo. Os dois foram logo depois. Chegando lá em cima, a primeira coisa que Dorovan viu foi o céu azul e sem nuvens, no oeste, e então virou-se e viu as Montanhas de Marfim e abaixo. Era incrível. Nas montanhas e no terreno abaixo, milhares de colunas de fumaça se estendiam até perto da cidade, obscurecendo o céu de Ax'aria.
- “É um ataque,” - Isgard começou, enquanto observava o horizonte horripilante a sua frente, as mãos evitando que o sol de lhe turvar a visão - “o maior que já vi. Nós vamos precisar de ajuda da capital. Há milhares por lá... Diabos! Com tantas fogueiras de acampamento, deve haver dezenas de milhares deles!”
- “Deles quem?” - Perguntou Dorovan, Sophie estava assustada demais para falar qualquer coisa.
- “Provavelmente orcs, ainda não sabemos, nenhum dos batedores retornou. Amigo, já terminei o que tinha para fazer aqui, se me permite, meus soldados precisam de mim.” - Isgard fez um meneio de cabeça e já se dirigia para a escada enquanto falava.
- “Certamente, capitão, certamente. Muito obrigada, por tudo.” - Dorovan devolveu o aceno, um pouco perdido. Então, olhou para Sophie. Ela o encarou, sem saber o que dizer.
- “Bem, minha querida, como diria o poeta:” - Dorovan fez uma pausa e então falou de modo teatral, enquanto apontava com o braço estendido para o grande acampamento - “Mas que grande bosta!”
- “Tenho que achar meu irmão.” - Ela disse, finalmente, com uma das mãos sobre a fronte e os olhos perdidos na visão sombria das montanhas.
- “Eu diria mais: temos que sair daqui. E rápido. Vou perguntar ao capitão sobre isso.” - Era Dorovan, já começando a descer as escadas.
- “Meu irmão...” - Disse Sophie, quase chorando.
- “Eu sei. Sobre isso também, agora temos de ir. Estamos ficando sem tempo.” - Era Dorovan, esperando na entrada da escada.
- “Se está achando que eu vou ser burra de deixar olhar debaixo da minha saia mais uma vez, pode esquecer. Vai subindo e me deixando descer primeiro, seu tarado.” - Disse Solhie, sorrindo.
- “Ora, mas como você me julga mal. Ficaria ofendido, se não tivesse tido a oportunidade de ver um sorriso em tão bela face. Por favor, minha bela Sophie, desça.” - Dorovan agora estava inclinado para a frente, com uma das mãos sobre o peito e a outra apontando para a escada ao seu lado. Sophie não respondeu e desceu, ele riu e a seguiu.
Encontraram Isgard no pátio novamente conversando com outros oficiais. Sophie ia falar algo, mas o espadachim a deteve, ficaram esperando por algum tempo até que os oficiais terminassem a conversa, e então Dorovan abordou o capitão.
- “Mil perdões por importuna-lo mais uma vez, meu estimado amigo, mas seria possível mais um minuto de sua atenção?” - Disse Dorovan, humilde. Isgard apenas deu um aceno de cabeça, e então Dorovan continuou - “Bem, sei que é muita petulância de nossa parte, mas gostaria de pedir duas coisas, uma saída da cidade, se possível, e alguma ajuda para encontrar o irmão de minha adoravél companheira. Acha que pode nos ajudar, nobre Isgard?”
- “Qual o nome do seu irmão, mulher?” - Era Isgard, olhando diretamente para Sophie.
- “Hoaram. Hoaram Isenshard.” - Sophie falou, decidida. O orgulho do nome da família era visível. Isgard riu. Sophie olhou para ele, sem entender.
- “Parece que vocês tem sorte. Faern, venha cá!” - Um dos soldados, que afiava seu grande machado duplo, veio rapidamente até eles. Isgard continuou - “O tenente Isenshard é o responsável pela evacuação dos civis. Faern é um de seus comandados.” - ele então virou-se para o recém-chegado e expediu uma ordem - “Soldado, acompanhe estes civis até o seu oficial responsável.” - O soldado confirmou a ordem e olhou para Dorovan, fazendo um aceno de cabeça, que o espadachim devolveu em seguida.
- “Novamente, muito obrigada, capitão.” - Dorovan disse, Isgard, indo na direção oposta e sem se virar, apenas acenou.
Caminharam por algum tempo, até chegarem ao centro da cidade, onde centenas de pessoas, muitas mulheres, Dorovan notou, se amontoavam ouvindo as instruções de um oficial. Sophie correu por entre a multidão, gritando algo que se perdia contra a voz magicamente ampliada do oficial. Quando chegou perto do palco, a voz se calou, olhando atônito, para a mulher que vinha em sua direção. Ele tinha o rosto severo e a barba por fazer. Era Hoaram Isenshard.
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